quarta-feira, 16 de agosto de 2017

nunca me disseram
nunca me explicaram
logo a mim que sempre
tive privilégio?

nunca me quiseram
nunca assim me aceitaram
logo a mim que sempre
tive privilégio?

jogo fora a lógica
sacramontada
que lota
grandes e confortáveis
templos
construções

e me enoja e sobra
as sobras e cobram
cobre e dor no corte
agudo da lâmina afiada
côrte
transpassa e sangra
escorre em

cruz
tronco
madereiras
sangue daqueles
que carregam privilégios
dos outros nas costas.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

eu só sei da coragem 
por causa do medo!
escondida na mata
vivo hora de sair
com ofá no braço
furacão na perna
e ir ver o medo
saltando da minha sacada
como um jogador habilidoso.

lindo, talentoso,
híbrido
(e eu também híbrida)
confundindo ser
com queimar fogo estranho.
projeção de sombra
com vela na mão
e eu até acho bonito,
mas sei que não quero mais ele ali.
(e foi com amor que o mandei ir embora).
longe foi ficando
e eu perguntando
pra que isso tudo?
esses caras sempre?
um ou outro querendo me dizer
o que pensar
o que sentir
o que dizer
o que fazer
agora basta
bastarda
em pele
arde e basta
só pele e osso
desassossegada de
não ter direito
nem dinheiro
nada inteiro
sem fazer direito
o jeito certo de ser
(se é que isso existe)
sendo
só o que me basta:
água, terra, fogo e
ar
soprando nesses
ossos para que vivam!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

recebo o dia
como recebi a noite de ontem
energia feita em gente
em mim
pulsando braços
punhos dedos e eu:

sentido
espalhado no corpo todo
sendo um só!

uma só!
uma só de mim

terça-feira, 6 de junho de 2017

éramos 15 fêmeas
14 mulheres e
1 gata, a lua

a lua lá de cima
abençoava encontro
e ressoava som
sonho antigo:
ser mulher, lésbica e compositora
e ainda ter tempo pra descer
e ficar aqui no quintal de casa
sonhando sonho de
dandara e dandaluna
nessa casa do ipê
plantado por amiga yabá

ojá de flores brancas
e a gente começou a
sonhar com água

o ipê tinha sede

e veio seca
e veio água
e veio seca de novo
e água
e racionamento

e o bichim quase morre
ainda bem que os olhos da vizinha
e as mãos da regina
deram de volta vida pro ipê

e a gente aqui em
casa falando de feminismos
composição
e lesbiandades.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

sorver só ver ver só verso verbo carne energia feita gente ventre virgem dilaaaata reproduz cria nova vida existe acende ascende aos céus ressuscitada viva água viva vulva pedra tanto bate que fura fura bolo cata piolho e feixe de luz futrica e vê vislumbra essa coisa boba e simples que é a eternidade cinzas no templo do sol renascinzas nesse ciclo de saturno é cruz é pó é morte: o fim de tudo é o começo que é o fim de tudo que é o começo que é o fim e começo e tudo do que era do que é e do que sempre será!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

ao som de cada palavra
uma gota pingando,
ecoando
bem baixinho
só pra me lembrar
que aqui dentro
também guardo palavras

q nem as gotas da chuva
pingando e secando
fazendo a gente desejar sol
e depois arrepiar
com a brisa quente
do ar de seu pulmão
em minha pele
dilatada
toda dada
ora rija.

nada

nado.
mergulho
desejo suas marés
tenho seu sal
a porção seca
de todo seu mar
mas ainda assim
me molho
só em ver você
passar
no meu mar
sendo seca
sendo ilha
sendo terra pra mim
e mar para o resto
de todos nós

ainda desenfreada
tenho mais vazio
agora,
e menos eu,
só pra poder me encher
de eu sou


domingo, 14 de maio de 2017

o céu eh branco
nessa seis horas de
amanhã que nunca chega

acho que eh branco
porque eh frio gelado
que nem meu peito
nesse resto de noite manhã

sexta-feira, 12 de maio de 2017

era eu em todas as eras!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

espelho

o que eu vejo eh isso:
cabelo corpo olhos
boca nariz queixo
ombro flecha
peito barriga
ela, vagina
pernas, furacão
pé pés
dando um jeito
de ficar em pé
medo
estranheza
e olho de novo
fico olhando
demorada
só olhando
sem dizer nada
só olhando e
gostando
e sendo isso.
ser eu
ter eu
ver eu
eh um dia de cada vez
nessas quartas
e desde os elos de saturno
eu venho
me tendo
me vendo
me sendo
toda ouvidos
em colo de olhos
tentando apagar o que não me diz respeito
só pra hoje
sopra oiá
só pra hoje
ser o dia de dizer pro espelho:
-espelho, eu...

terça-feira, 18 de abril de 2017

agradecida
foi assim q você me disse que
tava se sentindo quando eu perguntei
e eu também, pensei,
mesmo com os caldos
na beira do mar
caótico
caldos que eu recebia
pra entrar

um pouco
mais dentro,
porém
era mais calmo
foi mais calmo
está sendo mais calmo
até que de novo
as ondas
me lembram
que o mar é um
caos infinito
de tempo e tamanho
que se faz de 3 moléculas
forma triangular
criando todo
um outro universo
com milhares
de espécies e vidas
nascendo e morrendo
todos os dias

eu sou o mar
que nasce e morre todo dia
e nasce e morre
pedaço
pedaços de mim
desencaixados
pra tentar cumprir
forma não triangular

quis ficar só de calcinha na praia
mas num podia
porque tudo era só sexo

quis beijar minha mina na rua
e beijei
porque nem tudo era só sexo

enquanto escrevo
risco seu nome na areia da praia
e rezo, medito, oro e, também
muito agradecida
percebo que comungamos
da mesma fé
dita em livros diferentes
e você me ensina
a traduzir esse amor que me foi dado
e me desengasga

entre eu e o mar
nada mais há
que impeça d'eu ir lá
nem sermão,
nem irmão,
nem patrão,
nem medo do cão
sem medo de solidão
sei que se eu mergulhar
por baixo da onda,
me lançando no caos,
eu encontro a calmaria
de ser e cantar e viver
e morrer
como as pétalas amarelas
daquele blues que eu amo

fogo queimando
áries
buscando calmaria
de calor, afago, quentinho
e fritando sim, quando preciso

isso pra mim
tá sendo
calmaria
de verdade:
afundar nas ondas
do mar e saber
respirar e
poder fritar e dizer
e saber quem
eu sou!








segunda-feira, 17 de abril de 2017

elo, ela

elo, ela
unindo
guerreira
amante
poeta
cantora
garota elo

deusas
bruxas
fadas
todas
nós
em
cada
uma
do que
sou
do que
somos!

do que fui
do que fomos
do que,
juntas,
já somos!

04 abril 17

vem trazer pulseira
presente do mar
nessa quinta feira
dia de yemanjá

trago isso aqui
peito aberto
sem tentar fingir
nem ser tão esperta
ao ponto de insistir
encoberta só pra
tentar ser
a coisa certa

trago minhas mãos
trago meus pés
trago meu coração
e essa canção
que não tem que ser certa
pra me redimir
descoberta

salvador 3

salvador, 07 de janeiro de 2017.

o ano começou assim
sol, vento, praia e o mar, a mar
todinha lá, como se
pra me encantar e encantando
em canto, num canto, en
cantou e cantou final feliz
 mas não era final
era começo que se celebra com funeral
(por isso pareceu fim)
mas não era fim
dos restos mortais
ressurge uma
alada criatura
de antes
agora
de nunca mais
se junta
junta aquele resto
e leva pro templo
do sol

o ano começou
com
eu abrindo o olho e
vendo coqueiro
carregando fruto
mas se ninguém sobe no pé
pra ir buscar côco
seu ninguém bebe dessa água

com cara de paraíso
parecia o dia
com cara de paraíso
parecia a vida
e eu lá no meio dela
mergulhando e sonhando gotas
salgadas do mar
e a última oferenda do ano
dessa vez
teve sabedoria ancestral
pra explicar que mar,
que vento e caminho
podem ter nome e,
nesse caso,
yemanjá
que guarda pedido
e na hora apropriada devolve
o que não é de mar.



pra telma

indo de volta pro rio
pra ver o mar
e que saudade agora
que anseio
pra ele, pra ela
fazer prece e chorar,
prefiro orar assim,
neste lugar de sossego
e calmaria
aquele meu canto, seu
de almofadas e tapetes
gosto do gosto
das conversas
e das massagens
e dos risos
e das cores
e dos cheiros
e do jeito que você
fala de política comigo
e me mostra seguir, caminhar
jornada

e sorri, simples assim.

sábado, 1 de abril de 2017

conto ao meu ser

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele parece não me ouvir
e me convence a ceder

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele inquieta-se, pedindo que
eu lhe conte outro tipo de história, por favor!

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele se distrai com as próprias horas e
não quer mais saber de mim

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele se assusta, depois de longa espera,
e volta a prestar atenção em mim

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
ele se questiona,
não aprova, não entende, mas está disponível

conto ao meu ser que horas são e o que devo fazer
e só agora ele entende que sempre foi hora
era só fazer acontecer crer
sofro as consequências de não me sentir integralizada em todo o enredo que me atrevo a participar, mas refugio-me na esperança de que as forças unidas abreviam o tempo de espera das transformações que anseio para minha vida e estruturas. quando outros olhos me vêem eu me vejo e começo a tomar parte de mim e vou me conhecendo e tateando aqui ali, e, ao invés de uma estrangeira medrosa, me vejo como uma estrangeira curiosa, desbravando isso tudo que tem aqui dentro desse meu ser.

sem titulo

chocolate no congelador?
sim, eu sei, tá chuvoso o tempo,
mas nessas terras de cá
inverno é quente e verão é frio!
frio, nem tanto!
sempre há calor
pra uma cerveja gelada
com as amiga
e sempre há frio
pra caber num chocolate quente
de qualquer café
ou naquele do pote
que tem na sua geladeira

porque bom mesmo é estar com vc!

quarta-feira, 29 de março de 2017

era um sonho
uma estrada
um caminho
e eu andava
ora
defumando
velhos quartos
ora
serpenteando
na mata
que quando
mostra caçador
mostra também ofá
e tambor
e corda
e pena
e flecha
e som
e faz ventania
a mesma
que a ele
que a mim
deu existência,
sopro de vida!

e viveu
e vivi
e sonhei
...
corro e canso
paro, descanso
tomo o fôlego
brisa de vida

ventando nu pescoço
dançando descalço
sortilégio
escorrendo na rua
limpando beco
e tudo quanto eh esquina escura

eu vento
ela sopra
eu nado
ela molha
e me navega
e me escorrega
e ela rio
me leva de volta
pra lembrar que
esses espasmos de vida
me acontecendo é
a vida, a verdade e o caminho
que me leva de volta pro mar.
a casa
a vida do ipê
a lua, essa de cá
essa de lá
de cima
do céu
do alto
a minha em capricórnio
mostrou caminho
e eu me vi mulher
nesse canto de cá
que era pra erradicar invasão
e erradicou a solidão
de mim mesma.

não mais só
nem mais ausente
água com hortelã e gengibre
mata minha sede
as folhas e ervas
que lavam meus pés
me faz ver território
e pedaço de mim e
daquilo tudo que só agora
existia e existe na eternidade
sem fim nem começo
esse simples e gostoso agora
que a gnt anda aprendendo a viver
aqui na casinha...

a gnt se embala uma à outra
em cantos
e
voz acorde tecla corda
e batidas
e sonhos e escolhas e medos
se fundem
e a gente existe
e se recorda daquela dor antiga
de não poder ser
e ser
mesmo assim, doendo
só pra mostrar que a gente pode

a gente pode sim cantar!